Na companhia dos amigos do curso de Engenharia em uma tradicional universidade particular de Belo Horizonte, Gustavo (nome fictício para preservar sua identidade), 20 anos, se reúne com os colegas em um bar para beber e assistir um jogo de futebol. Do bar os amigos resolvem ir a uma festa. Eles vão de carro. Na festa Gustavo consome mais bebida alcoólica. No início da madrugada ele entra no seu carro para retornar à sua casa. “Eu senti confiança de dirigir, já tinha dirigido depois de beber algumas vezes”, declara Gustavo.
Durante o trajeto de volta, um carro atravessado no caminho o faz parar e buzinar. Segundo Gustavo o condutor do outro veículo disse para passar por cima. Ele sobe na calçada e segue.
Instantes depois, ao chegar no semáforo, seu carro é atingido na traseira pelo veículo que o fechara momentos antes. Gustavo desce do veículo para verificar o que aconteceu. Ele afirma ter sido agredido verbalmente. Segundo o estudante, no outro carro, jovens consumiam maconha. “O motorista saiu cantando pneu. Eu fiquei louco da cabeça e saí atrás”. Gustavo perseguiu o carro em uma das avenidas mais movimentadas de Belo Horizonte – a avenida do Contorno – passando por sinal vermelho inclusive. Na entrada de uma avenida ele quase perdeu a direção do veículo. Mais a frente, Gustavo afirma ter sido fechado pelo carro que perseguia. Ele bateu em um poste. O carro ficou destruído e, apesar da gravidade do acidente, Gustavo sofreu apenas uma fratura no dedo indicador da mão direita e um pequeno corte acima da boca depois de bater o rosto no volante. O amigo que o acompanhava no banco do carona bateu o rosto no pára-brisa sofrendo um corte superficial na testa.
O episódio envolvendo Gustavo é um dos poucos que não terminam em tragédia. A mistura de álcool e direção nem sempre resulta em ferimentos leves. Segundo o Centro de Estudos de Prevenção e Reabilitação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mais de 88% das vítimas mortais dos acidentes de trânsito apresentavam álcool no sangue.
Assumir a direção de um veículo após o uso de bebida alcoólica coloca em risco a vida não só do motorista, mas também de outros condutores e pedestres. Em Belo Horizonte o estudante Gustavo Henrique Oliveira Bittencourt, de 22 anos , dirigia em alta velocidade e na contra mão quando atingiu outro veículo provocando a morte do empresário Fernando Félix Paganelli de Castro, de 48 anos. Exames do Instituto Médico Legal (IML) comprovaram que Gustavo estava alcoolizado. Gustavo foi denunciado pelo Ministério Público e responderá por homicídio doloso – com a intenção de matar.
A Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) fez um Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira. Parte deste estudo pesquisou a relação entre bebida e direção. Segundo o estudo 34% dos entrevistados afirmaram que já pegaram carona em veículos cujos motoristas haviam feito uso de bebida alcoólica. Estas pessoas também estiveram expostas ao risco. É o caso do amigo de Gustavo citado no início desta reportagem.
O levantamento pesquisou a quantidade de indivíduos adultos que dirigiram e consumiram algum tipo de bebida alcoólica nos últimos doze meses. Dos entrevistados 61,6% afirmaram que isto nunca aconteceu; 8,4% disseram que foi somente uma vez; 10,4% duas ou três vezes; 9,4% algumas vezes e 6,4% afirmaram ter dirigido quase todas as vezes que bebeu.
Outro dado apontado pelo levantamento está ligado à idade em que os jovens começam a consumir bebida alcoólica. Segundo o levantamento os adolescentes começam a consumir bebida alcoólica aos 13,9 anos de idade e o uso regular começa aos 14,8 anos. Gustavo começou a beber aos 15 anos. Aos 16 já dirigia. Durante a entrevista, Gustavo afirmou que não tem o hábito de “dirigir chapadaço, mas de fogo sim”. Questionado sobre o receio de dirigir novamente alcoolizado ele afirmou que no início teve medo de dirigir mesmo sem beber, mas agora está como antes.
O Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) afirma que os acidentes de trânsito que resultam em morte ocorrem com maior freqüência a noite ou nos finais de semana. 77% dos acidentes fatais ocorreram entre as 18hs e 6hs.
O código de trânsito brasileiro considera infração gravíssima “dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica”.
A pena para este crime é de multa e suspensão do direito de dirigir.
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