“Porque toda partida de futebol é rito, e a finalidade essencial dos ritos é ‘assegurar a continuidade de uma consciência coletiva’ (Durkhein) compreende-se seu papel na contrução de uma personalidade grupal.”
Foi proposital a demora para escrever um post sobre o assunto. Esperei a poeira baixar.
Diante do ocorrido, fui reler alguns trechos de três dos vários livros sobre futebol que tenho. São eles: ‘Como o futebol explica o mundo’ de Franklin Foer; ‘Futebol – o Brasil em campo’ de Alex Bellos ; e o melhor deles, ‘A dança dos Deuses’ de Hilário Franco Junior.
E a poeira tanto baixou que não se encontra no noticiário de hoje, ou de ontem, nada relacionado ao assunto [desenrolar do caso] e sim sobre as medidas que poderão ser tomadas com relação às torcidas organizadas. Tomara que o carnaval não apague a discussão e o episódio caia no esquecimento. Como aconteceu com o caso do menino João Hélio que chegou a mobilizar o congresso para que modificasse a legislação, mas acabou com o nome do menino dado a uma praça e nada mais.
Eu já estive mais de cem vezes em um estádio de futebol para assistir os jogos do Atlético Mineiro. Clássicos foram quatorze. Muitas vezes eu fui sozinho ao clássico que realmente requer alguns cuidados. O gosto por estar presente no estádio vai além de ver ao vivo uma partida e presenciar a mobilização de milhares de pessoas por 90 minutos unidas. Há um interesse além disso, pois pretendo estudar futebol no futuro.
No último dia quinze eu não iria ao Mineirão. O motivo, simples: Eu trabalhei no domingo do clássico e depois iria para o sítio de um amigo que já me convidara outras vezes e não pude ir. Lá assisti o jogo com amigos.
Eu estava trabalhando a poucos metros do local onde o cabelereiro Lucas Anastácio foi baleado na avenida Silviano Brandão. Soube do episódio tão logo ele ocorreu. Instantes depois soube também do confronto de torcedores na avenida dos Andradas. Quando li que o torcedor havia morrido confesso ter ficado muito impressionado.
Não podemos esquecer da impunidade que contribui muito para a violência.
A IMPRENSA
A precipitação da imprensa contribui, de certa forma, para a tensão do clássico. Em fevereiro do ano passado o tiroteio em um ônibus da linha 9402 provocou a morte de duas pessoas. Logo foi noticiado que era fruto da briga entre torcidas. A rádio mais ouvida em MG entrou ao vivo noticiando o caso. Eu estava a caminho do estádio. Quando cheguei em casa li que a hipótese de briga entre torcidas estava descartada. [aqui]
Com o caso de Lucas não foi diferente. Imediatamente foi atribuída à guerra de torcidas a morte do jovem. Testemunhas teriam afirmado que os atiradores vestiam camisa da torcida rival.
O jornal O Tempo foi o único a divulgar no dia seguinte que a motivação do crime poderia ter sido outra: “Revés. Para polícia, disparo que matou rapaz seria destinado a outra pessoa e motivação não seria futebol”
Somente no dia 19 o Estado de Minas/UAI publicou que havia outras linhas de investigação: “Polícia levanta nova hipótese para assassinato de atleticano”.
Ainda não está comprovado que a morte do torcedor ocorreu devido à guerra entre torcidas. Apesar da capital registrar vários homicídios nos fins de semana, um crime deste tipo em dia de clássico acena para este tipo de notícia.
Teve emissora de TV dizendo que o crime aconteceu minutos antes do clássico: mentira. O crime ocorreu por volta das 11h30, mais de quatro horas antes da partida na Pampulha.
DE QUEM É A CULPA?
Em seu livro Alex Bellos diz:
Os brasileiros são um povo alegre, criativo, excessivamente amigável, e ainda assim – por causa dos problemas sociais do país – convivem com níveis de assassinatos e crimes violentos que equivalem aos de um país em guerra civil. Os Gaviões [da fiel] combinam esses dois extremos, são um imã tanto para a beleza imponente quanto para a brutalidade premeditada.
É errado generalizar a violência no estádio dizendo de forma simplista que torcedor é violento. Dizer isso é uma falta de respeito aos milhares de torcedores de todas as idades que frequentam o estádio como cidadãos civilizados que são e se comportam como tal. Atribuir a violência às organizadas é negligenciar a responsabilidade de todos envolvidos – autoridades, clubes, dirigentes e torcedores que não fazem parte de torcidas organizadas e tem atitudes violentas.
Rodrigo Gini do Estado de Minas foi muito preciso:
Até quando selvagens travestidos de torcedores vão assustar nossa população e ceifar vidas? Com o pretexto de defender o time do coração, levam às últimas consequências uma rivalidade que deveria se restringir ao gramado. Ninguém sai de casa com uma arma inocentemente e, no caso, nenhum tipo de provocação, se houvesse, justificaria tal atitude.
Um sujeito que sai armado não está com a melhor das intenções. Não está imbuido do espírito esportivo.
Que o futebol tem em sua essência a violência isso não se pode negar. O autor de ‘A dança dos Deuses’ deixa isso claro:
A violência social estimulada pela impunidade de políticos corresponde a violência futebolística alimentada pela impunidade dos (ir)responsáveis pelo futebol. (…) Ao lado dos fatores sociais, econômicos e psicológicos do fenômeno, a violência das torcidas decorre da própria essência do futebol.(…) Futebol é jogo de carater mais primitivo. É guerra simbólica.
Sobre a guerra simbólica o autor lembra como são denominadas as partidas: confronto, embate, batalha; e os artilheiros são ‘matadores’; o jogador ‘mata’ o lance e o time ‘mata’ a partida. Ele ainda lembra que:
Toda sociedade consente alguma forma de violência considerada legítima (prisão, tortura, execução, sacrifício) para controlar violências ilegítimas (roubo, coação, assassinato). (…) o jogo apresenta ambientação de claro sentido militar. A arena onde se desenrola é cercada por escudos, bandeiras, hinos e gritos de guerra das torcidas.
Sobre a tática do jogo o atuor diz que “o dado fundamental é a ocupação de espaços.” Delimitar território e ocupar espaços configura também um comportamento das torcidas. No Mineirão há esta divisão. Em dias de clássico os torcedores do cruzeiro ocupam o lado direito das cabines de rádio e chegam pela avenida Carlos Luz. Já os torcedores alvinegros ocupam o lado esquerdo das cabines de rádio e chegam pela avenida Antônio Carlos. Quando o jogo é de Atlético ou Cruzeiro com outro adversário, seus torcedores ocupam os mesmos espaços. Se concentram no local que ficam nos clássicos.
Os holligans ingleses além da conquista de território tinham confrontos marcados:
- Você chama o líder de outro grupo e diz: “te encontro às duas na Trafalgar Square”. E então você fica na esperança de que a polícia não chegue lá antes da coisa terminar. Às vezes dá para ir até o fim. Às vezes você vê os tiras e vai embora”
A afirmação é de Alan Garrison para o autor de ‘Como o futebol explica o mundo’.
Confrontos marcados não são exclusividade da violência no futebol. Nem podem ser atribuidos à questão social. Alunos de escolas particulares tradicionais de Brasília marcavam confrontos nas ruas.
E a violência dos estudantes universitários com os calouros?
Em visita que fez à sede da Gaviões da Fiel (maior torcida organizada do Corinthians) Alex Bellos afirma em seu livro que para entrar na Gaviões é necessário assistir uma palestra. Ele comenta sobre um dos palestrantes:
Eduardo, que tem 25 anos, discursa com profunda convicção. Cerra as sobrancelhas e mexe os braços com vontade. Fico com a idéia de que Eduardo é o tipo de pessoa que na Grã-Bretanha seria um ativista de esquerda, passando os fins de semana em marchas ou protestos na porta do MCDonald’s. Como a política brasileira é mais do que vazia em termos de debate ideológico, ele canaliza sua energia para o futebol.
A violência é do ser humano, não do futebol. O futebol é apenas um dos locais para onde a violência é canalizada. Felizmente, não é só a violência que é canalizada.
O LADO BOM
Trânsito ruim, cambista, desorganização, violência, erros de arbitragem, salários astronômicos, cartolagem… e ainda assim milhões de pessoas no mundo inteiro vão ao estádio. Será que estão todos enganados? Não. Todos esses torcedores – estes sim – vão ao estádio porque tem algo de bom, de divertido:
Torcer por um clube gera sentimento de pertencer a uma grande família anônima que o indivíduo escolheu por razões variáveis, não é a família nacional [seleção brasileira] que lhe foi imposta pelo destino. O simples fato de ver na rua, em situação cotidiana, longe do estádio, alguém vestindo a camisa do seu clube dá a sensação de pertencer a essa grande família.
Torcer por um clube é partilhar emoções.(…) Os seguidores de cada clube tem veste, hino e cânticos próprios, o que atribui a uma massa heterogênea do ponto de vista sociocultural uma identidade em comum. Porque toda partida de futebol é rito, e a finalidade essencial dos ritos é “assegurar a continuidade de uma consciência coletiva” (Durkhein) compreende-se seu papel na contrução de uma personalidade grupal.
Sob o ponto de vista psicológico:
O futebol pode ser entendido como “tela de projeção” (Freud) de variados sentimentos de diferentes sujeitos (torcedores) sobre uma mesma entidade (o clube comum a eles). Com tal entidade tem existência externa àqueles sujeitos (e não somente interna, como no caso das divindades tradicionais), estabelece-se entre ambos intenso jogo de transferência, isto é, de atualização em outro personagem de sentimentos marcantes, positivos ou negativos, anteriormente vividos na história da pessoa. Disso decorre a relação entre uma torcida e um time.
As torcidas organizadas de Atlético e Cruzeiro promovem ações sociais. Campanhas para recolher alimentos, roupas, doação de sangue são comuns entre os membros de torcidas organizadas. Porém, isso não é noticiado pela TV.
Vamos ao estádio porque temos um amigo do lado para compartilhar a emoção de um gol. Porque, no meu entendimento, é um dos poucos lugares onde as diferenças daqui de fora são eliminadas: nas arquibancadas, ainda que separadas por ingressos de valores diferentes, todos estão juntos e são apenas torcedores. É um lugar onde os homens não tem vergonha de chorar. Eu queria muito que houvesse tal mobilização para outras frentes. As ações sociais de organizadas já é um bom começo.
Em tempos de egoísmo e de seres solitários podemos olhar para multidão, a arquibancada, onde outras milhares de pessoas compartilham o mesmo sentimento. Por alguns momentos somos seres humanos.
Não podemos ser, também no futebol, reféns da violência.
Comercial da ESPN sobre os apaixonados por futebol
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