Maioria de torcida em clássico tira o brilho do jogo, prejudica os verdadeiros torcedores e atesta dificuldade de autoridades em lidar com a violência nos estádios
Uma medida radical acaba de ser adotada pelo governo para reduzir o número de assaltos no trânsito: a partir de hoje você motorista, não saia de casa. Ou melhor, venda o seu carro, defaça de seu veículo. Segundo as autoridades esta foi a forma que encontraram para diminuir os crimes. A medida é óbvia e burra.
Claro que a informação acima não é verdade, mas serve para ilustrar bem uma medida tão óbvia e não menos burra adotada com torcedores de futebol aqui em Belo Horizonte.
Representantes da Federação Mineira de Futebol, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Polícia Civil, Administração dos Estádios de Minas Gerais (ADEMG), Cruzeiro Esporte Clube e Clube Atlético Mineiro se reuniram no Ministério Público para definir a torcida majoritária nos clássicos.
O termo de audiência (aqui) estabelece as regras para que nos próximos clássicos entre Atlético e Cruzeiro 90% dos ingressos sejam destinados ao clube mandante. Além disso os torcedores em minioria ficarão no anel inferior do estádio. Desta forma, acreditam os dirigentes e autoridades que haverá redução na violência em jogos envolvendo os dois clubes.
Vejamos o posicionamento das autoridades e clubes diante da idéia de torcida majoritária: Muitos torcedores esperam, pelo bem do futebol, uma parceria entre Cruzeiro e Atlético. O primeiro acordo dos clubes prejudicou justamente o torcedor. Cruzeiro e Atlético manifestaram interesse em cumprir o artigo 79 do Regulamento Geral das Competições da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que diz:
Art. 79 – O clube visitante terá o direito de adquirir a quantidade máxima de ingressos correspondente a 10% da capacidade do estádio(…)
Dividir as torcidas não descumpria o Regulamento já que o parágrafo segundo do mesmo artigo diz:
§ 2° – Em cumprimento de acordo assinado entre os clubes, inclusive para situações de reciprocidade, a disponibilidade de ingressos para o visitante poderá ser superior aos 10% da capacidade do estádio.
Portanto os clubes manifestaram interesse na torcida majoritária.
A Federação Mineira de Futebol se posicionou apoiando a decisão dos clubes: o que os clubes decidirem ela acatava. Lavou as mãos.
O Ministério Público apoiou a decisão dos clubes e citou como exemplo as cidades de São Paulo onde 5% dos ingressos são destinados à torcida do clube visitante; Rio Grande do Sul (10%) e Santa Catarina onde o clássico Avaí e Criciúma tem torcida única.
Para o promotor “a realização de partidas com diminuição de uma das torcidas potencializa a segurança e diminui os gastos com segurança pública”. Repare que o argumento diz respeito aos interesses das autoridades e não dos torcedores, efetivamente. Quando se refere ao benefício para o torcedor o promotor diz que a torcida majoritária:
Atende de uma maneira melhor o direito do consumidor, pois, uma vez que haverá o aumento de uma torcida para o jogo, um maior número de torcedores do clube mandante poderá se dirigir ao estádio. Explicou que em dois eventos, considerando cinquenta mil ingressos, cada clube teria direito a vinte e cinco mil ingressos. Assim, em cada jogo, cada clube só poderia levar a campo vinte e cinco mil torcedores e, considerando que os torcedores do primeiro jogo não etão impedidos deir ao segundo jogo, cada clube atendeu uma pequena parte de sua torcida. Ao se disponibilizar carga de noventa por cento para um só clube, estará disponibilizando um maior número de ingressos para aquela torcida, o que, inevitavelmente, proporcionará que muitos torcedores que não teriam o direito de ver o espetáculo agora serão atendidos.
Comecemos pelos números: dois jogos 50 mil torcedores; se em cada jogo as torcidas forem divididas serão 50 mil torcedores de cada clube em ambos os jogos. Se houver torcida majoritária 45 mil torcedores assistirão o primeiro jogo e mais 5 mil no jogo seguinte, ou seja, os mesmos 50 mil torcedores. Não entendi o argumento de que “muitos torcedores que não teriam o direito de ver o espetáculo agora serão atenditos”. E será que estes 5 mil em minoria não estarão mais expostos à violência justamente por estarem em minoria?
Se o clássico for realizado às 18h30 do domingo, que horas esses torcedores sairão do estádio já que as torcidas visitantes, em geral, tem que sair mais tarde do estádio?
Se a intenção é levar mais torcedores ao estádio por que 50 mil ingressos se atualmente a capacidade do estádio é de 75 mil torcedores ?
O promotor esqueceu de um detalhe: o termo “clássico” em futebol é o nome dado ao confronto entre duas tradicionais equipes da mesma região. É uma partida que gera enorme expectativa entre torcedores e clubes. É um momento especial para os que frequentam o estádio. A torcida majoritária põe fim ao maior espetáculo de um clássico: a vibração das torcidas que, divididas no estádio promovem um momento único.
Eu arrisco dizer que é uma unanimidade entre torcedores cruzeirenses e atleticanos que as torcidas, juntas, fazem do clássico um momento especial. Em uma enquete realizada pelo site da rádio Itatiaia mais de 76% dos que votaram reprovaram o clássido de uma torcida só. Já no site Superesportes a reprovação é de mais de 70%.
A Polícia Militar delcara que “fará estudos necessários para atender à nova sistemática implantada”. Não se manifestando favorável ou contra a medida.
O Corpo de Bombeiros declarou no temo de audiência que “em razão da estrutura física não ser alterada, não se opõe.”
A Polícia Civil disse que uma análise deverá ser feita e com as estatísticas pode-se fazer uma avaliação da potencialização da segurança.
A ADEMG também não colocou nenhuma objeção à realização do jogo com torcida majoritária.
Entendo que ningúem está preocupado com o direito ao lazer e diversão. Ninguém penso no verdadeiro torcedor.
Desta forma ficou definido que Cruzeiro x Atlético no dia 12/07 pela 10ª rodada do Brasileirão o Cruzeiro terá 90% dos ingressos. E no jogo de volta, dia 10/10 pela 29ª rodada os atleticanos terão 90% dos ingressos.
VIOLÊNCIA NO ESTÁDIO?
Em entrevistas veiculadas na mídia dirigentes e autoridades disseram que o objetivo da medida é reduzir a violência nos estádios. Tal declaração mostra que eles desconhecem a realidade do Mineirão.
Primeiro é necessário, mais uma vez, lembrar que não podemos confundir baderneiro, marginal e vândalo com torcedor de futebol. O sujeito que sai armado para um estádio de futebol tem intenções que vão muito além de torcer para o seu time, se é que há a intenção de torcer. Não podemos esquecer ainda que as brigas e confusões ocorrem fora do estádio ou a caminho dele. Portanto, limitar o número de torcedores é prejudicial apenas aos torcedores.
Autoridades e clubes deveriam se empenhar em punir os agentes desses crimes de maneira exemplar. A impunidade é também a grande responsável pela sucessão de atos de violência e vandalismo envolvendo jogos de futebol.
Repare que as partes mais afetadas na decisão não participaram da reunião. A participação de dirigentes de torcidas organizadas resumiu-se à notificação por parte do Ministério Público informando que:
As torcidas organizadas do time visitante não realizem qualquer aglomeração no dia do evento, principalmente nos locais de adjacências e cercanias do estádio, sob pena de imediata dispersão pela PMMG [Polícia Militar]
Isso mesmo, além de não ser permitida a ida ao estádio, torcedores não poderão se reunir. O que torna contraditório o argumento inicial: se colocar apenas uma torcida dentro do estádio reduzirá a violência, por que tanta precaução fora dele? Porque eles sabem que o problema não é no estádio e sim fora. Então, que tomem medidas para combater a violência fora do estádio.
O comentarista da rádio itatiaia Lélio Gustavo disse em uma transmissão quando o assunto foi levantado:
“Derrota dos justos para os vagabundos que vão para o estádio aprontar”
Obrigar o torcedor a não ir no estádio é uma medida burra. Fere o direito de ir e vir do torcedor. Acaba com o que há de mais bonito do clássico. E, simbolicamente, representa a assinatura de um atestado de incompetência de nossas autoridades e clubes na solução da violência nos estádios.
É com essa mentalidade que vamos sediar uma copa do mundo?
Arquivado em: #






